Anne Frank nasceu em 1929, na Alemanha, filha de um banqueiro e de uma
dona de casa, ambos de origem judia. Aos quatro anos de idade, Anne foi
obrigada a sair do país com sua família, encontrando inicialmente uma
vida segura e confortável em Amsterdã, após a chegada de Adolf Hitler ao
poder em 1933. Já em 1942, com a perseguição aos judeus deflagrada
também na Holanda, após a tomada dos Países Baixos pelo III Reich, Otto Frank,
sua mulher e filhas unem-se a mais quatro pessoas e decidem se esconder
dos invasores alemães. Por mais de dois anos, até serem delatados, eles
tiveram de viver dias aterrorizantes e toda a tensão da Segunda Guerra
Mundial, limitados ao anexo do sótão do escritório de Otto Frank.
No
esconderijo, o diário de Anne era o único instrumento de liberdade que
ela possuía, e, nele, relatou a vida cotidiana do Anexo Secreto, as
transformações sofridas por cada um dos que ali residiam e a angústia
daqueles dias. Ele destaca sentimentos, aflições e pequenas alegrias de
uma vida incomum, a transformações da menina em mulher, o despertar do
amor, a fé inabalável na religião, e revela a rara nobreza de um
espírito amadurecido pelo sofrimento. Quando encontrados, os moradores
foram levados para uma prisão holandesa e posteriormente para um campo
de triagem de judeus, Westerbork até serem transferidos para Auschwitz. Anne Frank fora em seguida transferida com sua irmã Margot, para o campo de concentração Bergen-Belsen, onde morreu de tifo, no inverno de 1945, aos quinze anos de idade.
A
história começa em 12 de junho de 1942, quando a jovem Anne Frank ganha
de presente de aniversário um diário. A partir desse dia a menina
relata os seus sentimentos, pensamentos e tudo o que ela faz. Começa
descrevendo sua vida bastante comum para uma garota de sua idade. Fala
de suas amigas, da escola, dos seus pretendentes, família e passeios. A
princípio nada de diferente para uma menina de treze anos, mas no
decorrer de suas anotações percebemos uma preocupação em função do
anti-semitismo que agora se fizera presente na Holanda e suas
conseqüentes restrições, e com o planejamento de uma iminente fuga junto
da família, o que faz seus pais se desfazerem de alguns móveis e
objetos de valor para angariar fundos visando o incerto período que
ficariam escondidos.
Quando sua irmã recebe uma notificação da SS
a família resolve antecipar o plano de fuga. Com a ajuda de amigos, a
família Frank reúne apenas alguns itens de mais necessidade e deixa a
casa, de modo que não desconfiem que a família esteja fugindo. É nesse
momento que Anne Frank deixa uma vida boa e confortável ao lado sua
família para abrigar-se num esconderijo improvisado nos fundo do
escritório de seu pai.
Quando chega ao Anexo a história torna-se
ainda mais comovente. A difícil adaptação a uma vida de limitações e do
difícil convívio com sua família e com outros quatro amigos judeus – os
três van Daan como os chama, mas van Pels na verdade e o dentista Albert Dussel (Fritz Pfeffer)
– também escondidos que resulta em constantes conflitos e discussões,
estão muito presente em seus desabafos. No esconderijo todos vivem uma
vida de abdicações de conforto e de privacidade com o inalterável medo
de serem descobertos e delatados as autoridades nazistas e ou
colaboracionistas holandeses, fazendo então silêncio, e tomando várias
precauções para que isso não ocorra.
Os habitantes do Anexo Secreto,
como Anne gosta de chamá-lo, necessitam da ajuda de alguns funcionários e
amigos do escritório para o abastecimento de comida e para suprir a
carência de algumas peças de vestuário, que ficavam numa situação
degradante com o passar dos meses. São eles que arriscam suas vidas para
levar alimentos e materiais higiênicos para os escondidos quando o
estoque inicial vai acabando. Anne descreve o racionamento de comida
pelo qual todos os holandeses passam, com a necessidade da utilização de
talões para adquirir comida. Para eles evidentemente, é necessário que
utilizem o mercado negro, através dos amigos do escritório Miep, Bep, Sr. Kugler e Sr. Kleiman,
para consegui-los com constante elevação de preços. Difícil também era a
preparação de comida, em função das restrições e escassez de certos
itens, provocando uma grande falta de variedade e invariáveis repetições
no cardápio.
Os piores momentos vividos eram os dos ataques aéreos a
Amsterdã. Com o barulho das sirenes que o anunciavam os moradores
ficavam apavorados, principalmente quando seguidos por tiros de armas e
de canhões. Outra preocupação eram os assaltos realizados ao escritório e
que conseqüentemente descobrissem o anexo, pois como Anne descreve
muito bem em várias passagens, a sociedade viveu um período degradante
de sua história, com famintos e desabrigados pelas ruas ao lado de
delinqüentes que se aproveitavam da situação para roubar.
A jovem
descreve toda a conjuntura da guerra com impressionante fidelidade. Com
as notícias trazidas do mundo real pelos amigos ou ouvidas pelo rádio –
este como o maior portador de notícias ao grupo e o elo de ligação deles
com o mundo – descrevia as batalhas, as invasões, as tomadas de
territórios pelos Aliados, as frustrações com o conflito com as baixas
destes, a esperança com a resistência dos russos e as derrotas alemães.
Marcante é o anseio desesperado pela invasão inglesa e o depósito de
toda confiança e esperança nos neles como sendo aqueles que poderiam dar
fim ao conflito e a perseguição aos judeus, ou seja, trazer de volta o
passado fraterno. Isso é comprovado através de toda a alegria e o
otimismo do “Dia D”, o desembarque inglês na costa da França e com o
andamento dos russos para o oeste do continente.
Anne também deixa
transparecer todo o seu lado humanitário, com a preocupação para com os
outros judeus que não puderam se esconder e com os cidadãos holandeses,
pelos quais tem grande apreço, e que também sofrem com a guerra. Relata
os episódios comuns ao conflito, os quais já temos conhecimento, como as
sabotagens, as resistências jovens e os trabalhos forçados aos quais os
homens eram arregimentados, com toda a emoção e com o ponto de vista de
uma vítima do conflito mundial. Anne também descreve seu desejo de
tornar-se uma cidadã holandesa, já que sua nacionalidade alemã fora
retirada por Hitler, mas tem medo diante da mudança de atitude dos
holandeses para com os judeus, que segundo ela, o acolheram muito bem. A
menina que deseja ter a Holanda como sua pátria, tem medo de ter que
deixá-la após o conflito.
No lado pessoal, ela vive uma instabilidade
comum a uma menina adolescente com seus típicos problemas de
mentalidade, sociabilidade e sexualidade, tudo em profundas mudanças. É
confusa quanto a seus sentimentos e assim fica com a descoberta do amor.
Descobre em Peter van Daan– o filho dos amigos de seus pais
que estão no esconderijo – uma pessoa que passa pelos mesmos problemas
que ela e por ele sente uma mistura de amor, amizade, solidariedade,
consolo e paixão, mas sem saber ao certo o que sente na verdade. Anne
tem uma personalidade forte e difícil de lhe dar, tem crises
temperamentais e existenciais, mas cresce, admite seus erros e seu
temperamento difícil, e amadurece.
Ela tem saudades do passado, dos
tempos anteriores a vida no esconderijo, tem o desejo de liberdade, de
fazer as coisas como andar de bicicleta e de passear ao ar livre – a
menina admira muito a natureza, o céu, a lua, a brisa sempre que pode – e
de estar com amigos. Mas tem um forte apego na religião, coragem – não
deixa de estudar como uma necessidade e como uma forma de passatempo –,
perspectivas para o futuro e planos para o dia que saírem do
esconderijo. No entanto, em alguns dias o otimismo e a esperança dão
lugar à tristeza e ao pessimismo, e a menina chora sozinha em sua cama
ou trancada no banheiro. Contudo, toda a expectativa da jovem menina foi
em vão, pois sua vida foi abreviada antes de completar dezesseis anos
de idade, num campo de concentração, pelos insanos planos do nazismo de
Hitler.
O Diário de Anne Frank é mais do que um livro. É uma lição de
vida, um relato emocionante de um dos períodos mais tristes e
degradantes da história da humanidade. Com as palavras da jovem menina, o
leitor vive junto de toda a população do anexo, toda a tensão e o
andamento da Segunda Guerra Mundial através da visão das vítimas do
conflito, que são completamente diferente das palavras escritas nos
livros que abordam o assunto, pois são carregadas de emoção, sinceridade
e principalmente, experiência. O diário mostra o caos e o estado de
calamidade que a Europa viveu durante o conflito, com roubos, invasões,
crises de abastecimento, racionamentos e mercado negro. Apresenta também
todo o horror da perseguição e das atrocidades cometidas contra os
judeus e toda a repulsa dessa gente a Adolf Hitler e a Alemanha, uma vez
que seu sofrimento fora aumentando gradativamente à medida que Hitler
adquiria mais poderes, não somente sobre a Alemanha, conforme sabemos
através da fuga da família Frank de seu próprio país quando o führer chega ao poder, mas também quando ele se apodera de meia Europa.
Um
documento que faz o leitor sofrer e torcer junto com os personagens e
perceber o quão difícil foram àqueles tempos, e tamanhas foram às
barbáries cometidas à humanidade por parte de uma pequena fração insana
desse todo. Aclamado até os dias de hoje pela crítica, como um dos
livros mais importantes do século XX, é uma obra antológica que deve ser
lida por todos, para que a humanidade jamais se esqueça da brutalidade e
da crueldade cometida e propagada pelo Nazismo e para que não permita
que nenhum episódio semelhante tenha uma repetição na história e para
que outros diários desse tipo não sejam mais escritos.
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